2 de junho de 2010

Conversa de mãe para mãe

A Rosana postou aqui uma entrevista muito legal com o marido dela, a respeito do pensamento paterno em relação a assuntos... paternos!
Achei tão legal que para esse primeiro post oficial aqui no materna preparei algo parecido: Uma entrevista com a minha mãe a respeito de assuntos maternos, oras!
Alguém aí já perguntou pra mamãezinha como foi o nascimento de si mesmo? hum? Eu nunca tinha. Confesso que queria mais detalhes, mas se fosse colocar tudo seria melhor escrever logo um livro. (?)

E como esse blog trata de assuntos Brasil-Nippônicos, não pensei duas vezes em pedir a opinião da minha mãe, que é a pessoa mais experiente que conheço quando se trata desse assunto...

Me perdoem qualquer coisa, não sou jornalista e essa foi a primeira entrevista que formulei para alguém!

Ah, só um detalhe: Meu pai, que foi citado nesse post, não é meu pai biológico. Ele virou meu depois de alguns anos de nascida hehehe.

01 de junho de 2010- Ebina , Kanagawa- japao


Como você foi parar no Japão?

Trabalhava em uma instituição social em São Paulo e ali sempre recebemos voluntários de diversas partes do mundo e pela primeira vez tinha chegado um voluntário japonês. Começamos a nos interessar um pelo outro. Ele teve a idéia de dar um curso e neste curso ia ter nota, quem tivesse a melhor nota viajaria com ele e a fundadora do projeto para o Japão para lançamento do livro que ele havia escrito e seria lançado no Japão. Eu tive a melhor nota do grupo e então viajamos os 4, Ute Craemer, Daisuke Onuki, minha filha de 4 anos(eu!) e eu. Viajamos por varia cidades do Japão e ai nos já éramos namorados. Quando vim morar no Japão pela primeira vez já sabia ler e escrever hiragana e katakana por causa deste curso.

Há quanto tempo vive essa vida Brasil-nippônica?

19 anos!

O que gosta e o que não gosta do Japão?

Gosto, pois tenho filhos japoneses e faz parte da minha vida.

E também aprecio a culinária, gosto da tecnologia e principalmente dos banhos de onssen que só tem aqui.

Não gosto da política, da educação que dão para as crianças e da frieza do povo e principalmente da situação da mulher aqui.

Quantos filhos você tem? Eles nasceram onde?

Tenho 3 filhas, uma nasceu em São Paulo, no hospital, uma na casa da parteira alemã Angela Guerke e a menor nasceu no hospital de Kamakura(Kanagawa) na sala de pré- parto todas com parto natural.

Pode falar um pouco como foi a gravidez/parto/pós-parto de cada uma?

Na gravidez das três nunca tive nenhum problema foi tudo normal e o pós -parto também.

O parto da minha primeira filha foi fácil mas não fui amparada o suficiente para poder ter um parto natural, foi usado anestesia e corte para ajudar. Minha segunda filha o parto foi maravilhoso pois estava cercada de pessoas do meu convívio. Nasceu na casa da parteira com muita calma, foi lindo demais poder ter um filha nascendo em casa. Já a minha filha menor nasceu no hospital em Kamakura. Na verdade eu queria ter tido o parto em uma casa de parto do Japão, mas não foi possível pois os médicos ficaram com medo por eu ser estrangeira e não apoiaram a parteira da casa de parto e não quiseram se responsabilizar. Então procuramos o melhor hospital que fizesse o parto do jeito como eu queria, encontramos o Hospital de Kamakura, e neste hospital a mãe pode falar como quer o parto. Quando vi que a sala de pré- parto era aconchegante falei que queria ter minha filha ali mesmo. Acharam estranho. É que eu não queria sentar em cama de parto para ter minha filha. Eles aceitaram e correu tudo normal com a parteira ao lado. Só não foi melhor porque na hora que o bebe nasceu eles já levaram embora como geralmente é feito nos hospitais. Eu queria muito que tivessem deixado minha filha comigo, mas trouxeram ela para eu ver e levaram para o lugar onde os bebes ficam longe da mãe. Só pegava ela nas horas da mamada. Não gostei!

Você foi e voltou muitas vezes entre Brasil e Japão... Como foi tudo isso?

Foram muitas viagens. Quando a minha primeira filha tinha 4 anos viemos pela primeira vez e aqui ficamos 4 meses, na época quase não tinha brasileiros aqui então ficávamos só com os japoneses mesmo. Quando a minha segunda filha nasceu em São Paulo, passaram- se 40 dias e viemos para o Japão com muitas malas e eu vim morar em um país estranho com duas filhas pequenas, foi muito difícil mas como morava em Kamakura, uma cidade linda, foi agradável.

E quando a minha filha menor nasceu aqui no Japão, também por conta do trabalho do meu marido viajamos para o Brasil quando ela tinha apenas 40 dias também.

Foram muitas viagens, e depois todos os anos fomos e voltamos entre Brasil e Japão. Um vida intensa mas não é fácil viver entre estas duas culturas e ter que se adaptar hora aqui hora ali.

Qual parte foi mais difícil? Você acha que teve um ponto positivo em tudo isso?

A parte mais difícil foi conviver com os japoneses no Brasil e no Japão, pois no Brasil eles tem um comportamento diferente de quando estão no Japão. Por eu sempre estar ligada ao movimento social, muitos voluntários tornavam-se meus amigos quando estavam lá, mas aqui me esqueciam. Foi muito dolorido ser deixada de lado por eles no país deles. Quando estavam no Brasil eram simpáticos sempre estavam na minha casa, nas festas etc...mas aqui só trabalho mesmo, não passavam nenhuma emoção nem sentimento. Por causa da cultura deles que não pode expressar sentimento, eu ate entendia mais foi doloroso me acostumar com isto. Também não consegui seguir uma carreira, ter um trabalho definitivo pois quando estava bem em um projeto ou trabalho tinha que mudar e fiquei dependente do meu marido. Mesmo assim sempre trabalhei por conta própria pois sou pedagoga e artesã de brinquedos educativos, e consigo ainda dar alguns cursos no Brasil e tenho uma ligação ainda muito forte com a Associação Comunitária Monte Azul porque mesmo de longe sempre trabalhei como voluntaria para essa entidade social.

O ponto positivo foi que consigo desenvolver projetos com japoneses tanto no Brasil quanto no Japão, pois entendo as necessidades deles aqui e também a pressão que é exercida em cima deles pelas instituições que financiam os projetos. Outra parte positiva foi que minhas filhas falam e escrevem bem os dois idiomas, pois foram alfabetizadas nos dois, nunca abrimos mão de falar na nossa língua materna com elas, eu na minha e ele na dele, então elas dominam as duas línguas e falam inglês também. Conseguem circular pelas duas culturas e compreender melhor que eu e já não é tão doloroso para elas quanto foi pra mim.

Suas filhas estudaram em escola Brasileira e Japonesa?

Nos primeiros anos de estudo das três optamos pela Educação Waldorf para que pudessem seguir o mesmo tipo de ensino tanto lá quanto aqui, o ensino através da arte que é o que a criança precisa. Isso ajudou muito a fortalecê-las como seres humanos. Também fizemos questão de alfabetizar as três nas duas línguas, português e japonês.

Outra coisa que optamos foi que no Japão elas entrariam em uma classe um ano abaixo mesmo tendo a opção de cursar aqui uma classe um ano acima. Não gostamos de forçar nossas crianças com conceitos intelectuais antes da idade, e como aqui a escola é muito intelectual achamos importante ir devagar com elas, pois assim se desenvolveriam melhor e quando alcançassem o nível daqui iriam fazê-lo com mais segurança. Deu muito certo e as três sempre tiveram boas notas na escola japonesa, sempre entre as melhores da classe. Não que fizéssemos questão que fossem as melhores, pelo contrário, sempre fizemos questão que elas tivessem mais tempo para brincar e não só estudar.As boas notas foram consequência de se pensar no lado humano. Tanto no Brasil como no Japão sempre fiz questão também de como mãe estar em casa pra recebê-las quando chegassem da escola, porque na hora que a criança chega da escola a mãe pode perceber como ela está, se está triste, feliz, chateada...E se houver algum problema pode conversar e se for preciso ir ate a escola conversar com os professores para saber o que está acontecendo. Muitas vezes fui na escola, telefonei para conversar com os professores tanto no Japão quanto no Brasil. Aquela mãe bem chata! A gente que vive neste mundo entre duas culturas tem que prestar atenção em dobro nas crianças.

Qual a maior dificuldade que você sentiu sendo mãe brasileira no Japão? (num contexto geral e também em relação à educação dos filhos).

Senti a diferença cultural muito forte. Sempre fui ouvida pelos professores não tive muitos problemas, acredito que quem carrega a maior dificuldade é a criança e não a mãe. A mãe só precisa entender que a criança tem que ser apoiada para poder frequentar a escola sem ter problemas e estar atenta ao que acontece com ela. Minha filha menor sofreu ijime e fui muito criticada por isso, foi muito difícil entender porque minha filha era culpada e não o professor. Exigi reunião com todos os professores pra falar sobre o ijime , foi a primeira vez que colocaram o ijime em pauta. No final foi tudo resolvido, descobriram quem eram as próprias crianças que estavam fazendo ijime, descobri que ha muito tempo muitas crianças sofriam com a mesma situação e as mães não falavam nada. Muitas mães vieram me agradecer depois, porque a partir daquele dia tudo mudou e acabou o ijime na escola. Na escola japonesa hoje o ijime já não é mais tratado como tabu. Na época que minhas filhas eram crianças foi muito difícil, eu não era aceita na escola porque qualquer coisa eu reclamava. Já cheguei a gritar em porta de escola para que colocassem o ijime em pauta e muitas vezes as outras mães se assustavam, mas nunca deixei passar nada. Na época falar sobre o ijime era um tabu para as mães, porque se uma criança sofresse ijime eles pensavam quem quem estava com problemas era a criança e não os professores. Pra mim se uma criança está tendo problema na escola o problema é do professor ou da escola. Se há um problema é porque a forma como eles estão levando a classe não está correta, tem que mudar a abordagem pedagógica. A criança só precisa de compreensão e um ensino que seja dirigido a ela. Também nunca gostei da forma como aqui o governo manda demais na educação, os professores não tem liberdade de fazer o que querem dentro da sala de aula. São obrigados a seguir a risca os livros didáticos que são muito intelectuais e não vêem a parte do ser humano.



A maior dificuldade foi em entender porque aqui eles forçam tanto as crianças e adolescentes a partir da 4ª serie. Ate ai as crianças ficam mais livres e tem tempo para brincar se os pais colocam as crianças em reforço, é opção dos pais. E a partir da 4ª serie as crianças não tem mais tempo pra brincar, voltam tarde da escola e só tem tempo de fazer a lição de casa.

Qual a maior diferença encontrada entre as escolas brasileiras e as japonesas?

Para mim e o carinho o aconchego que se da as crianças na escola brasileira e na japonesa não. O professor não olha no olho da criança, não pega na mão. Ele não pode sentir se a criança está bem, se trouxe algum problema de casa ou se há algum problema na escola, não sabe se a mão da criança está quente ou gelada. Uma grande diferença é que na escola japonesa eles tem uma excelente estrutura física, apesar de a escola parecer uma prisão tanto no Brasil como no Japão. Porém a estrutura do Japão é melhor pois eles tem uma classe bonita, tem muita aula de arte apesar da arte ser rebuscada... Tem uma boa alimentação, Sendo que no Brasil as escolas públicas são uma vergonha, são pichadas, trancadas com cadeados. Estou falando em escola publica. Agora se for comparar a escola particular no Brasil com uma escola particular no Japão, a escola brasileira é por mim considerada melhor pois tem estrutura física boa e bons professores que são livres para exercer a sua aula de acordo com o que a classe precisa. O Japão é um pais que dá valor a educação, essa é uma grande diferença, embora a didática deles não seja boa eles estão fazendo o melhor que podem para as crianças.

Outra aspecto bom daqui é que a escola trabalha em conjunto com os pais e desta forma eles estão resolvendo muitos problemas, o maior deles que é o ijime já esta em um nível muito bom pois está quase desaparecido. Hoje em dia tem um telefone que qualquer um pode ligar e falar que sofre de ijime, então a escola é contatada e resolve-se o problema.

Como você vê as escolas brasileiras do Japão? Acha que é melhor para as crianças?

Já desenvolvi projetos em escolas brasileiras no Japão, estive em varias escolas. As escolas são boas, os professores são atenciosos com as crianças mas tem muitas dificuldades porque os pais não colaboram, os pais trabalham muito e não tempo para os filhos. A escola brasileira aqui segue o calendário brasileiro e foge um pouco do ideal para as crianças, pois elas estão no Japão e tem que se adequar as coisas que acontece no país onde elas estão vivendo.

Sempre pensei que o melhor para as crianças que estão fora de seus país é se adaptar ao país em que vivem, entender os costumes, falar a língua...O que não acontece com as crianças que estudam nas escolas brasileiras do Japão, e essas criança sempre vão ficar a margem da sociedade pois não entenderam o que acontece no pais onde vivem.

Acredito que seja melhor a criança frequentar a escola do pais onde ela está. Não importa se a criança veio pra ficar um mês, um ano, dois ou mais. Ela vai ter maior desenvoltura pra falar e pra agir se estiver adaptada ao país. Hoje em dia nas escolas brasileiras do Japão as crianças já tem maior acesso à historia do Japão e à cultura, isso melhorou um pouco, mas as aulas são todas lecionadas em português, e não acredito que isso seja bom. Sempre optamos por ter nossas filhas na escola do país onde moramos.

Que conselho você daria para as mães brasileiras que tem filhos em escola japonesa?

A melhor coisa é acompanhar o estudo de seus filhos, se não entende a língua, procurar aprender ou procurar alguma pessoa que possa ajudar, mas ficar atenta, olhar as lições todos os dias. Não deixar faltar nada no material escolar. A mãe tem que ajudar a criança a se adaptar para que o filho não sofra com preconceitos. Já que a criança está no Japão e na escola japonesa, a mãe tem que ajudar a criança a se adaptar e não querer quebrar as regras imposta a todos. Só porque sua criança é brasileira não quer dizer que tem que ser diferente das outras, todas as crianças são iguais.

***
Dúvidas, criticas, elogios e principalmente sugestões de assuntos para posts aqui, por favor me escrevam!

tainaonuki@gmail.com
Ou deixa um comentário aqui mesmo.

Beijos!

6 comentários:

Carol Flor disse...

Ah, que gracinha sua mãe!!! :)

Fanynha disse...

Essa entrevista foi muito bonita, sua mãe é uma pessoa muito interessante...parabéns...

Rosana Oshiro disse...

A-D-O-R-E-I!
Já tinha pensando nessa entrevista mas fiquei meio sem jeito de pedir! =P
Eu não chegaria nem perto de fazê-la desse jeito tão bacana e completo!
Aprendi um monte aqui agora!
E quero trocar muitas figurinhas com sua mãe!
Obrigada por essa excelente contribuição!

beijo

Tai disse...

Rosana! Tem que falar! Preciso de idéias! :P

Mulher e Mãe disse...

Meninas! Nós do Mulher e Mãe amamos o blog! Vcs têm dicas e posts ótimos para as mamães! Principalmente para aquelas que estão longe do Brasil.
Estava aqui lendo e pensei, já que falamos da mesma coisa, pois estou junto com uma equipe trabalhando numa rede social específica pra mulher e mãe, gostaria mto de manter contato com vcs.
Nosso twitter é @redemulheremae e nosso facebook é http://bit.ly/ahJg16

Beijo!
Danuzza ~ Equipe Mulher e Mãe

Aika disse...

Tai, muito bacana seu post,adorei! O hospital que eu tive meu bebe eh o mesmo de Kamakura,alias foi la que se iniciou a humanizacao do parto nessa rede de hospitais (shonan byouin).Da epoca que sua mae teve ate agora acho que ja mudou bastante,pra melhor,porque hoje em dia tem palestras mensais no hospital e estao respeitando bastante a vontade das maes.
Ah! Sua mae esta em Ebina?Ebina eh a estacao mais proxima da minha casa!
Beijos!
Kelly Yamada

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