1 de abril de 2009

As novas donas de casa

Antenadas e atuantes, as donas de casa de hoje abrem mão da carreira em prol da educação dos filhos e maior participação na vida cotidiana.

- "Não sou dona de casa, sou mãe em tempo integral", falam em coro as mulheres que deixaram o mercado de trabalho para se dedicar à educação dos filhos. Antes de a maternidade bater em suas portas, essa ideia jamais passaria por suas cabeças. Afinal, aprenderam desde crianças a investir na formação e carreira, livrando-se da dependência dos maridos, o que era comum no tempo de suas mães.

Embora tenham optado por esse caminho, deixando para trás boas posições profissionais, todas recusam a pecha de "dona de casa", que se tornou quase um palavrão. "O termo é carregado de preconceito", diz a engenheira de computação Alinye Amorim Yamada, de 29 anos. "Associam a faxineira ou a alguém sem qualificação."

Opinião parecida tem a ex-modelo e ex-empresária Luciane Trapp, de 27 anos. "Basta falar que é dona de casa para as pessoas olharem para você com pena, ou acharem que você é inútil ou folgada por não ajudar o marido com as despesas." A ex-coordenadora de Recursos Humanos, Laís Rosa, de 24 anos, também não se sente bem no posto de "mulher do lar", pois sempre ouviu da sua própria mãe que "dona de casa é empregada doméstica de filhos e marido".

Ainda, a arquiteta Fernanda Passos, de 29 anos, recusa-se a preencher fichas e cadastros com a expressão que no passado já foi considerada motivo de orgulho entre as recém-casadas.

Apesar dessa conotação negativa, foram elas que abriram mão da carreira para trabalhar em casa sem ganhar um tostão. Mas não antes de terem pensado e avaliado todos os prós e contras dessa decisão tão difícil. E aí está uma das grandes diferenças em relação às donas de casa de antigamente.

ESCOLHA

Segundo a psicóloga e pesquisadora Cecília Russo Troiano, autora do livro Vida de Equilibrista - Dores e Delícias da Mãe que Trabalha (Editora Cultrix), ao contrário de antigamente, esse retorno ao lar é uma opção, e não mais uma falta de escolha. "Agora trata-se de um movimento renovado, pois não existe mais submissão feminina", argumenta. "Antes não era uma escolha, mas sim uma resolução compulsória, o caminho tradicional a ser seguido. Além disso, as mulheres se deparavam com a falta de qualificação profissional e com um mercado que restringia o acesso feminino."

Essa escolha, porém, é motivo para muito estranhamento hoje. A dona de casa Luciane Trapp causou polêmica quando escreveu no blog Mamíferas sobre seu encantamento pela vida do lar. Com dois rebentos, ela abdicou até de serviços de faxineira para assumir as tarefas domésticas. "Não há dinheiro, carreira ou prestígio que pague o que estou vivendo. Conforto, coisas materiais, tenho a vida inteira para conquistar, mas acompanhar os filhos pequenos é uma oportunidade única na vida!"

Após tais afirmações, choveram críticas, pois as mães que continuam batendo ponto em uma empresa sentiram-se ofendidas, achando que a ex-modelo e ex-empresária estava criticando quem não havia feito o mesmo que ela. "Fiquei chateada no começo, pois apenas contei como me sinto realizada com a minha vida atual", explica Luciane, que dispensou o brilho dos holofotes de sua carreira de modelo para assumir o papel de "mãe em período integral".

Enquanto muitas seguem esse caminho logo na primeira experiência de maternidade, Luciane só resolveu jogar tudo para cima depois de sua segunda gravidez. Quando não estava na escolinha, aos 6 meses de idade, sua primogênita acompanhava a mãe durante as visitas a clientes . A vida de Luciane era tão corrida que a pequena Gabriela largou o peito e foi para mamadeira com 6 meses.

Diferentemente das outras entrevistadas - marinheiras de primeira viagem, que estão se adaptando ainda à rotina doméstica, algumas contando com a ajuda de empregada ou faxineira -, Luciane faz absolutamente tudo em casa. Garante que, depois que assumiu as rédeas do lar, muita coisa mudou para melhor:

- Amadureci como mulher, ajudei a reorganizar as finanças da família, e minha casa ficou mais arrumada, pois antes era uma bagunça. A qualidade da alimentação de todos melhorou radicalmente a ponto de estar mais magra e mais rejuvenescida. Meus filhos estão mais amáveis e tranquilos, não ando mais estressada como antes. Agora estou sempre de bem com a vida e até o sexo com o marido melhorou. Sou amélia, caxias com as obrigações do lar e gosto de cozinhar!

PONTO DE EQUILÍBRIO

A nova geração de donas de casa se distingue também pela maneira de atuar. De acordo com a psicóloga e pesquisadora Cecília Russo Troiano, a mulher de hoje é dirigente de seu caminho, seja trabalhando fora ou dedicando-se ao lar. "Cuidar da casa, agradar ao marido e educar os filhos eram as missões da boa mãe e esposa", compara. "Faz parte do ciclo de mudança da sociedade a negação do extremo, representado pela dona de casa e, agora, também pelo modelo da executiva, que precisou se masculinizar para ingressar no mercado de trabalho. Esta é a época da busca do equilíbrio."

As realizações das novas donas de casa não se resumem mais a passar direitinho a gola da camisa do marido ou a deixar a casa "um brinco", mas sim a cuidar atentamente dos filhos, ter boa qualidade de vida e - aí vem a grande virada - manter-se sempre bem-informada.

A arquiteta Fernanda Passos, por exemplo, aproveita a soneca da filha de 10 meses para se atualizar. "Estou mais informada agora do que quando trabalhava, pois antes não sobrava tempo", fala. "Depois que minha filha vai para a cama, fico no computador praticando um programa de animação sobre o qual fiz curso. Mantenho contato com os colegas e faço questão de mostrar que estou por dentro das novidades da profissão."

Alinye está esperando a poeira baixar para seguir cursos de engenharia, sua área profissional. Aliás, a fase de adaptação em casa não é nada fácil. Afinal, essas mulheres foram criadas por suas mães para brigarem pelo sucesso profissional, e não para serem hábeis nas tarefas domésticas.

A engenheira com pós-graduação em gestão de negócios ficou balançada quando percebeu o tamanho da nova responsabilidade. "Tenho uma faxineira que me ajuda", confessa Alinye. "Do serviço de casa o máximo que faço é lavar as roupinhas do bebê e cozinhar. Como não tenho prática nem ideias para preparar refeições variadas todos os dias, pesquiso receitas na internet. "

FREIO NOS GASTOS

Dinheiro parece não preocupar essas mulheres. Boa parte tem um bom pé de meia guardado no banco, resultado das economias dos extintos salários, ou dispõem de um cartão de crédito conjunto com o marido. Só que, em vez de gastança, o lema é administrar as finanças com parcimônia. Outro ponto em comum: nenhuma se imagina a rainha do lar para o resto de suas vidas. O retorno à carreira permanece como projetos pessoais para o futuro.

"Não parei de trabalhar para virar dona de casa, mas sim para cuidar do meu filho", avisa Laís Rosa, que abandonou seu posto de coordenadora de Recursos Humanos em uma multinacional. "Ele é a minha missão mais importante no momento. Minha mãe fala que se arrependeu de ter largado sua profissão para cuidar dos filhos, pois ninguém dá valor. Não quero reconhecimento, apenas que meu filho tenha uma infância feliz. Mas pretendo retomar a minha profissão."

Mais seguras nessa decisão compartilhada com os maridos, sentem-se apoiadas e valorizadas por eles, que também veem essa iniciativa como uma contribuição para as responsabilidades do lar, mesmo que isso signifique menos dinheiro no caixa da família. "A mulher, contudo, sempre vai se sentir culpada, ou por deixar o filho em casa ou por abandonar o trabalho", ressalta a pesquisadora Cecília. "Por isso, o importante é saber administrar essa culpa feminina inerente, que perece fazer parte de seu DNA", conclui.
Por Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo de domingo, 29 de março de 2009.

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